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Novo projeto da Rede Previna-se é focado em mulheres negras urbanas e quilombolas

O novo projeto da Rede Previna-se é intitulado “Autocoleta para teste de HPV como estratégia de promoção da equidade e de diminuição da morbimortalidade por câncer do colo do útero em mulheres negras das diferentes macrorregiões brasileiras”.

Ele foi um dos projetos apresentados no Seminário Marco Zero de 2024, evento que aconteceu em Brasília, entre 10 a 14 de junho, e reuniu pesquisas contempladas pela Chamada Pública nº 21/2023 – Estudos Transdisciplinares em Saúde Coletiva. 

A pesquisa se encaixa no eixo de “Equidade em Saúde” e propõe avaliar a aceitabilidade e a adesão de mulheres negras urbanas e quilombolas à autocoleta para teste de HPV para rastreio e prevenção do câncer de colo do útero nas três diferentes macrorregiões econômicas brasileiras, alcançando estas mulheres via educação em saúde e treinamento de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e de Líderes Comunitários. 

As cidades e os estados das macrorregiões envolvidas no projeto são: Maringá – Paraná e Dourados – Mato Grosso do Sul (Macrorregião Centro-Sul); Manaus – Amazonas (Macrorregião Amazônica); Natal – Rio Grande do Norte; e Recife – Pernambuco (Macrorregião Nordeste).

A Rede Previna-se é coordenada pela professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Marcia Edilaine Lopes Consolaro, e desenvolve projetos em nível nacional, desde 2013, sobre o estudo da autocoleta vaginal para teste de HPV no combate ao câncer do colo do útero.

Cenário atual

Os projetos da Rede Previna-se sobre autocoleta para teste de HPV surgiram por conta de um contexto preocupante: muitas mulheres não fazem o exame Papanicolaou, também chamado de preventivo, um dos métodos mais conhecidos para o rastreio do câncer cervical.

Isso acontece por conta da vergonha, pelo desconforto do exame, falta de informação e acesso ou por proibição do marido. A falta de rastreamento contribui com os 17 mil novos casos de câncer de colo de útero que são registrados, anualmente, no Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Esse dado é ainda alarmante entre as mulheres negras urbanas e quilombolas, pois estudos mostram que elas estão entre as mais afetadas pelo câncer do colo do útero e esses números têm aumentado com o passar do tempo.

“Diante disso, entendemos que é urgente olhar com mais atenção para as mulheres negras, tanto das cidades, quanto das comunidades quilombolas, e desenvolver pesquisas que ajudem a criar políticas públicas mais justas, que possam mudar essa situação e salvar vidas”, explica a coordenadora da Rede Previna-se.

É importante destacar que o câncer do colo do útero é, praticamente, 100% prevenível com a vacina e o rastreamento. Por isso, a praticidade da autocoleta, por ser rápida, indolor e além da possibilidade de ser realizada pela própria mulher em casa, em uma clínica ou em qualquer outro local conveniente para ela, pode facilitar e aumentar a adesão para aquelas que não realizam o exame de prevenção do câncer de colo do útero. 

O objetivo do projeto é oferecer a autocoleta para teste de HPV, para que essas mulheres coletem a amostra de forma simples e acessível. “Isso facilita o acesso ao exame, especialmente em lugares com poucos serviços de saúde. Com mais mulheres fazendo o teste, é possível identificar o risco cedo, garantir o tratamento a tempo e ajudar a prevenir a doença, promovendo mais igualdade no acesso à saúde”, conta a professora Marcia Consolaro. 

Metodologia 

O novo projeto da Rede é feito em parceria com os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e Líderes Comunitários, que receberão treinamento para orientar e apoiar as mulheres negras urbanas e quilombolas. Depois, cerca de 600 mulheres, de diferentes comunidades e Unidades Básicas de Saúde (UBS), vão receber um dispositivo simples para fazer a autocoleta para teste de HPV. 

As amostras serão enviadas a um laboratório especializado que identificará os tipos de HPV de alto risco para desenvolvimento de câncer. Isso ajuda a detectar precocemente as fases iniciais, antes do câncer do colo do útero se desenvolver. As mulheres que receberem diagnósticos positivos serão encaminhadas para acompanhamento, tendo acesso ao tratamento e à prevenção.

Planejamento

As reuniões de alinhamento do projeto já ocorreram e, durante os encontros remotos, foram discutidas as seguintes pautas: aprovações éticas de cada centro; indicação dos bolsistas, modalidades e prazos de bolsa; cronograma de atividades, datas dos treinamentos nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs); divulgação científica; cronogramas de reuniões; e assuntos gerais. 

O projeto também já está aprovado nos Comitês de Ética de cada centro. Esse passo é essencial para garantir a proteção dos direitos e da dignidade das participantes, assegurando que a pesquisa siga princípios éticos e legais. “No caso deste estudo, que envolve mulheres negras em situação de vulnerabilidade, a avaliação ética é fundamental para promover a equidade, assegurar o consentimento livre e esclarecido, proteger os dados pessoais e evitar práticas discriminatórias, além de contribuir para que os benefícios da pesquisa sejam alcançados de forma justa e responsável”, afirma Marcia Consolaro.

Reunião de alinhamento

Atualmente, o projeto está na fase de treinamento presencial das equipes locais, incluindo ACS e Líderes Comunitários de cada centro participante, com base em um modelo de educação em saúde já aplicado pela equipe da Rede em projetos anteriores. Após essa etapa, é hora de buscar mulheres negras urbanas e quilombolas em cada centro do estudo, que são elegíveis para participar do projeto.

Nesse projeto, a Rede Previna-se também conta com uma bolsista de divulgação científica, com o objetivo de levar informações claras e confiáveis sobre a prevenção do câncer do colo do útero para mulheres negras urbanas e quilombolas. “Isso ajuda essas mulheres a entenderem a importância do exame de autocoleta para o teste de HPV e a se sentirem mais seguras para participar. Além disso, a divulgação aproxima pesquisadores, profissionais de saúde e comunidade, fortalecendo a confiança e incentivando a adesão ao exame, o que é essencial para detectar o câncer mais cedo e salvar vidas”, acrescenta a coordenadora da Rede.

Ao oferecer experiência prática no trabalho com comunidades reais, especialmente com mulheres negras urbanas e quilombolas, o projeto ainda ajuda na formação dos alunos participantes. Eles aprendem a aplicar conhecimentos sobre saúde pública, prevenção do câncer e métodos de autocoleta de HPV. Os alunos também participam de treinamentos, pesquisa e ações educativas, desenvolvendo habilidades em comunicação, trabalho em equipe e respeito à diversidade cultural. Isso os prepara para atuar melhor no sistema de saúde e na promoção da igualdade no atendimento.

Políticas públicas

Além de ajudar a detectar o risco de câncer mais cedo e salvar vidas, o projeto também pode auxiliar no fomento de políticas públicas ao mostrar, na prática, que a autocoleta para teste de HPV é uma forma eficaz e acessível de prevenir o câncer do colo do útero entre mulheres negras urbanas e quilombolas.

“Com dados e resultados confiáveis sobre a aceitação e os benefícios da autocoleta, o projeto oferece informações importantes para que governos e gestores de saúde possam incluir essa estratégia nos programas oficiais de prevenção, promovendo mais igualdade no acesso aos cuidados com a saúde”, conclui a professora Marcia Consolaro.

Novas diretrizes 

Até o momento, o Papanicolaou ainda é o exame mais tradicional para o rastreamento do câncer de colo de útero, porém, em 2024, o Instituto Nacional do Câncer, apresentou uma proposta de nova Diretriz Brasileira de Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, que substitui o exame preventivo, pelo teste de DNA-HPV oncogênico, um exame que possui maior sensibilidade para identificar lesões pré-cancerosas.

Essa proposta já tem aprovação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), e só precisa da avaliação final da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde para ser oficialmente implementada. A previsão é que o exame Papanicolaou seja substituído de forma gradual no Sistema Único de Saúde, o SUS, pelo teste molecular de DNA‑HPV, ainda em 2025.

Para saber mais e ficar atualizado sobre o tema, siga as redes sociais do projeto.